terça-feira, 24 de maio de 2011

Mas afinal... o que é o carimbó tradicional???

Uma manifestação artística da cultura tradicional paraense.  E por cultura tradicional entendemos àquelas que numa sociedade dividida em classes sociais e hierarquizada etnicamente é produzida, principalmente, pelo setor marginalizado da população.



No geral, são produções coletivas, anônimas, dinâmicas, transmitidas de geração em geração principalmente pela forma oral e não pela organização sistemática de ensino-aprendizagem valorizada pela sociedade moderna[1].

 

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 Imagens cedidas pela ASAPAM: Assiciação de Agentes de Patrimônio da Amazônia


Apesar do narrador do vídeo acima afirmar que o carimbó é de origem africana, tudo indica que é o processo de miscigenação na região o  formador original da manifestação.Não podemos entender a manifestação sem pensar nos povos originários ou no colonizador.
A palavra carimbó é fruto da união de duas palavras de origem tupi, curi (= madeira) e imbó (= ôca)[2], e possui um duplo sentido: Em primeiro lugar designa um instrumento musical, denominado curimbó, espécie de atabaque, tambor feito de um tronco internamente escavado, onde numa das extremidades é colocado couro curtido.



                                                                                  Foto: André Moura Campos


O tocador do instrumento senta-se em cima deste e, com as mãos zabumba-o com um ritmo especial. Deste toque origina-se o segundo sentido: a dança do carimbó.   


A Galera do Grupo Sancari, de Belém, " Dançando na chuva"

 Além deste tambor, outros instrumentos como a rabeca, violão, cavaquinho, banjo, flauta, clarineta, saxofone (sopro), pandeiro, maracas, matracas e caxixi, podem fazer parte da apresentação do carimbó tradicional. “Podem fazer parte”, na medida em que as coreografias, o instrumental, a indumentária, assim como os versos variam de acordo com a localização e o desenvolvimento social e econômico das regiões onde é produzido. Na dança, no instrumental, nas letras, na “função” dentro do contexto em que está inserido, em todos estes aspectos, é evidente a  presença de elementos indígenas, europeus e africanos nesta manifestação, altamente miscigenada.

                                                                                                  Foto: Bruna Muriel


[1] Esta definição é a que Brandão denominava, na década de 80, de folclore. Brandão, Carlos Rodrigues. O que é Folclore. 9ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1982.

[2] Cascudo, Luís da C., Dicionário do Folclore Brasileiro. 8ª ed. São Paulo: Global,1980.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Microscópio de Mundo

Conforme Clifford Geertz, o papel da etnografia é trabalhar com a esfera do micro, de modo a revelar uma série de questões mais amplas sobre a humanidade e as sociedades. Apesar de a etnografia partir de um estudo “microscópico”, as interpretações antropológicas servem para explicar fenômenos de grande escala, “[...] de comunidades inteiras, civilizações, acontecimentos mundiais, e assim por diante [...]. É para dizer, simplesmente, que o antropólogo aborda caracteristicamente tais interpretações mais amplas e análises mais abstratas a partir de um conhecimento muito extensivo de assuntos extremamente pequenos”[1]. Em nosso caso, a realidade micro é o Carimbó.

Ao ser investigado, traz à tona questões amplas e urgentes atualmente, como o são as questões sobre identidade nacional, a indústria cultural,a necessidade de políticas públicas para a cultura, os processos históricos de marginalização étnica e social. O estudo sobre o Carimbó, além de aprofundar o conhecimento sobre a manifestação em si, auxilia na compreensão do modo de vida das comunidades tradicionais que habitam a região amazônica e que foram marginalizadas triplamente ao longo da história brasileira: como classe social, como etnia e por pertencerem a uma zona geográfica especialmente excluída nos processos de modernização do nosso país.






   Espaço Cultural Tio Milico, Fortalezinha, PA






Uma vez que, como afirma o antropólogo Roberto da Matta, a identidade brasileira não é vista como “[...] um caroço ideológico imutável, mas como um arranjo historicamente dado de elementos – objetos, relações, palavras, vestimentas, espaços, valores, personalidades e mitos – que, embora existentes em todas as sociedades, combinam-se de modo especial, constituindo o que os brasileiros e estrangeiros reconhecem como sendo o Brasil”[2], acreditamos necessário voltar os olhos para as culturas tradicionais, como parte de um fortalecimento destes elementos singulares e únicos que fazem do Brasil, Brasis[3].

Este movimento de afirmação das identidades nacionais, que tem acontecido não apenas no Brasil, mas em outros países periféricos, faz-se necessário diante do atual contexto de expansão da indústria cultural e a ideologia do consumo que estes difundem e propagam. Apesar das duras críticas, o capitalismo neoliberal segue dominante. Voltar-se para as culturas tradicionais é, portanto, voltar-se para formas de explicação, compreensão e vivência da realidade totalmente distintas da cultura de mercantilização das relações e valores do sistema capitalista. Enquanto nas culturas tradicionais encontramos valores como o respeito aos saberes ancestrais, aos mestres, o prazer, a reciprocidade, a coletividade e a comunhão entre homem e natureza, os valores difundidos pelo sistema econômico e ideológico dominante são o individualismo extremo, a concorrência, o acúmulo, a dicotomia homem-natureza, as relações interessadas e o consumo irrefreado.

Por isso a importância de entender o mundo sob outro prisma,  onde estão presentes os valores que as culturas tradicionais carregam, que é repleta de elementos carentes na sociedade atual. Reforçada, revivida e reinventada, elas fortalecem nossa idéia de singularidade, o que, por sua vez, nos torna mais fortes diante dos processos de massificação da cultura hegemônica capitalista.





                                                         Ensaio grupo Akauã, Cachoeira do Arari, PA



Sobre o processo crescente de globalização, Renato Ortiz[4] afirmava na década de 90 que não existiria,  uma real globalização: esta significaria, necessariamente, um intercâmbio econômico e cultural equilibrado entre todos os países. O que viveríamos seria mais um processo de homogeneização cultural, uma mundialização da cultura do consumo, que leva a um desmantelamento de outros modos de vida que não fazem parte desta lógica. Este movimento contribui para o desaparecimento de manifestações artísticas como o Carimbó, ou para a incorporação destas manifestações por parte do sistema, com o único e exclusivo objetivo de consumo e lucro (por parte, principalmente, das empresas turísticas e dos governos das regiões).

Na mesma linha de Ortiz, a pesquisadora Maria Nazaré Ferreira destaca como a indústria cultural e os meios de comunicação de massa atuam, por um lado, no sentido da desintegração dos “[...] valores culturais, históricos, morais, éticos e estéticos dos povos latino-americanos, e, de outro, globalizam, homogeneizando gostos e costumes” [5]. Assim, o avanço da economia neoliberal, do desenvolvimento de novas tecnologias e do poder crescente dos meios de comunicação de massa exige que pesquisadores e políticos de países em desenvolvimento, como o Brasil, adotem um posicionamento de defesa dos interesses políticos e econômicos nacionais. Sob outro prisma, exige também um posicionamento de afirmação dos valores culturais que nos fazem únicos, singulares e capazes de uma releitura do sistema e do mundo distinta da defendida e propagada pelos países desenvolvidos.





                                                                  Espaço Curuperé, Outeiro, PA  
                                                                                        Fotos: André Moura Campos
         

Neste sentido, vale destacar a afirmação de Da Matta sobre como, ao mesmo tempo em que se fortalecem as correntes globalizadoras, crescem os movimentos de defesa sobre o regional. Viveríamos um momento de polarização entre o local e o global, em que “[...] a universalização crescente imposta pela ausência de um “outro lado” implica uma necessidade premente de autodefinição e, acima de tudo, de autoconhecimento. Daí minha preocupação com a identidade brasileira [...] pergunto-me se não é precisamente nessas situações de irresistível globalização que mais ficamos conscientes de nossa singularidade e identidade”[6].

De alguma maneira estamos diante deste processo de tomada de consciência da nossa “brasilidade” – identidade cultural única de um povo também único – tal como definido por outro grande antropólogo, Darcy Ribeiro: “Como não há nenhuma garantia favorável de que a história venha a favorecer, amanhã, espontaneamente, os oprimidos, há, ao contrário, o legítimo temor de que, também no futuro, essas minorias dirigentes conformem e disformem o Brasil segundo os seus interesses, torna-se tanto mais imperativa a tarefa de alcançar o máximo de lucidez para intervir eficazmente na história a fim de reverter sua tendência secular. Esse é o nosso propósito”[7]. E o nosso também.



                                                                      


 


[1] Geertz, Clifford. A Interpretação das Culturas, Rio de Janeiro: Zahar, 1973, p.24.
[2] Da Matta, Roberto. A Mensagem das Festas: Reflexões em torno do sistema ritual e da identidade brasileira. Revista Sexta Feira. São Paulo, 2, 1998, n. 2, ano 2, p. 73. 
[3] Da Matta, Roberto. O que faz o brasil, Brasil?, 2ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
[4] Ortiz, Renato. Mundialização e Cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
[5]Ferreira, Maria Nazaré.A Comunicação (Des)Integradora na América Latina – Os contrastes do neoliberalismo. São Paulo: Edicon, 1995, p.22.
[6] Da Matta, Roberto, op cit, 1998, p. 73.                                                 
[7] Ribeiro, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Cia das Letras, 1995, p. 248.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Prazer estético X pensamento científico?

E...como surgiu a idéia do projeto?

Sabe quando, de uma estante cheia de livros, você por acaso escolhe um e quando começa a ler e, surpresa!, o autor está escrevendo pra você, dialogando contigo? Com um amigo com quem você bate papo em uma mesa de bar, ele afirma, você retruca, ele retrocede, e a conversa avança. Duas sensações podem surgir daí. A primeira, é uma exaltação e  a sensação de que você acabou de conhecer o seu alter ego escritor. A outra, é uma certa frustação de haver sido parodiado intelectualmente, afinal, você quem tinha tido aqueles pensamentos, aquelas ideias e aquelas conclusões!
Mais ou menos isso aconteceu ao ler, pela primeira vez, Roland Barthes e seu ensaio sobre a fotografia. Suas palavras sobre os conflitos entre o ser criativo e o ser científico, entre arte-fruição e a análise-razão, são uma das melhores descrições para as nossas próprias sensações ao optar por estudar o carimbó. Houve, primeiro, um sentimento de paixão pelo carimbó.Não o objetivo de estudá-lo. E se a razão amortece a emoção e mata o tesão?
Queríamos vivenciá-lo em seu sentido lúdico, não racionalizá-lo! Dançar e cantar, não analisar! Sensação de ambiguidade imediatamente identificada como análoga às palavras do autor  sobre a fotografía:
“Que me importavam as regras de composição da paisagem fotográfica ou, em outro extremo, a fotografia como rito familiar? Cada vez que eu lia algo sobre a fotografia pensava em tal ou qual foto preferida e isto me encolerizava. Pois eu não via mais que o referente, o objeto desejado, o corpo querido. Mas uma voz inoportuna (a voz da ciência) me dizia então em tom severo: <<Volta á Fotografia! O que você vê aí está compreendido na categoria de “Fotografias de aficcionados”, sobre qual tratou uma equipe de sociólogos. Não é mais que a marca de um protocolo social de integração destinado a revelar a Família, etc.>> No entanto, eu persistia. Outra voz, a mais forte , me impulsava a negar o comentário sociológico; frente a certas fotos eu desejava ser selvagem, inculto.[1]
Mas, se por um lado o que desejávamos com o carimbó era deixar o corpo livre pra transformar em movimento aquilo que é percussão e repetir o refrão sentindo  a proteção da Princesa de Algodoal, também pudemos perceber o Carimbó como parte de uma discussão muito mais ampla. Dançar o carimbó tem a ver com a possibilidade de usufruir do carimbó. Não somos ribeirinhos de Marapanin, netos de carimbozeiros, não nascemos na ilha de Maiandeua. Vivenciar o carimbó ou não tem a ver, portanto, com as possibilidades de sua existência, com seu processo de valorização e difusão.
Daí a necessidade de refletir sobre esta manifestação e sobre a cultura tradicional brasileira de modo geral.Refletir sobre a cultura de massas e os valores presentes na cultura hegemônica. Impossível não cair no “sociologuês”, no “antropologuês”, no “cientistapolitiquês” que, realmente, desconstróem muito da beleza do espontâneo. Mas estes "uês" todos são ferramentas necessárias, inclusive para que a paixão como espectador/"dançador"  possa ser vivenciada.


[1] Barthes, Roland. La cámara lúcida. Barcelona, Gustavo Gili, 1982, pg. 167  p.36.

Olhares





















































                                                                                                 Fotos: André Moura Campos

Um cadin de explicação...

O objetivo do projeto de pesquisa “Carimbó: expressão da identidade cultural do caboclo paraense”, que atualmente encontra-se em andamento, é a realização de uma pesquisa que busca compreender alguns aspectos fundamentais desta manifestação cultural e seus produtores, como:
1.Suas origens históricas, étnicas, geográficas,
2.A relação entre o Carimbó e o modo de vida (o trabalho, a religiosidade e os valores) das
 comunidades tradicionais que o praticam,
3.As transformações no Carimbó diante das mudanças que os processos de modernização trazem para as comunidades,
4.Onde se situa o carimbó diante da massificação do ritmo conhecido como o  “tecno-brega” e a cultura das “aparelhagens”.

Com este objetivo em mente, percorremos distintas localidades da Ilha do Marajó, da Zona do Salgado e da região metropolitana de Belém, buscando entender esta manifestação artística que é ritmo, música, instrumento, dança, brincadeira, crença, religiosidade. Queríamos encontrar os encantantes daquela terra de encantados, os mestres e “carimbozeiros” que, no bater do curimbó, expressam alegrias, dores, trabalho, amores.
Buscaremos aqui, compartilhar algumas das experiências vividas, algumas das histórias contadas. Algumas das músicas ouvidas, das lições aprendidas, das imagens vistas, das conclusões chegadas...


                                                                                                                             Foto: Bruna Muriel
 

ParaDas & Encantarias...

                                                                                            
Em busca do carimbó, encontramos bois, folias, marujadas, lundus...Encontramos o carimbó marajoara, o praiano, o urbano, o interiorano, o rural... Os grupos pára-folclóricos, os tradicionais, os institucionalizados, os "Derrepente", que sobrevivem em forma de maracás em cima de uma bicicleta e, "de repente", acontecem. Encontramos encantados como a Princesa, o Gritador, O Vira-lixo, o Boto, a Sereia. Comemos tacacá, tucupi, açai, uxi, maniçoba, jambu, taperebá, cupuaçu, bacuri, pupunha, tapioca, farinha d´água, sorvete de carimbó, cuzcus paraense. Infinidades de sabores, cores, odores. Paisagens diversas formadas pelo encontro do rio com o mar, Amazônia atlântica, Ilha do marajó, Zona do Salgado, Belém, Icoaraci, Outeiro...



























                                                                                                                   Fotos: André Moura Campos